segunda-feira, 8 de novembro de 2010

EU ESPERAVA...

Eu olhava o mar, como quem espera um barco.
Tu eras o mar e o barco que eu esperava
Passou o mar, ficou o vento
A lua passou, ficou a noite escura
Passou o sonho, ficou a nuvem
Passou o tempo, ficou a ruga na face
A chama passou, ficou a saudade
A luz passou, ficou a mágoa
As palavras passaram, ficaram as letras
Os beijos passaram. E os lábios ficaram nos bolsos
Os anos passaram, ficaram os segredos
A canção de amor passou, ficou a memória
Os olhos passaram, ficaram as lágrimas
O mar que eu esperava
Virou poça d’água. E nada mais passou
Nem o barco que eu esperava
Nem canoa de papel.

Otacílio Mota

2 comentários:

  1. Caramba Vô!
    Adorei esse, ficou muito bom!
    Embora seja triste ficou muito lindo. Muito bom mesmo.

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  2. Otácilio,

    Essa sua poesia lembrou-me a "Autopsicografia" de Fernando Pessoa, cuja primeira estrofe transcrevo:

    "O poeta é um fingidor./Finge tão completamente/
    Que chega a fingir que é dor/A dor que deveras sente..."

    É um fingimento lírico, mesmo que dolente, mas comovente.

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