domingo, 15 de julho de 2012

IMPENETRÁVEIS INFINITOS

A vida...

Já estou quase de saída

Mas o amor pulsa tanto assim

Que não sinto coragem

De me despedir de mim.

O que ainda me compõe me aninha

O que descompõe me azucrina.

Os zunidos

São sentidos

Até dentro dos ossos,

Que envelhecem o que me habita

a pele grita.

O tempo agita o coração

Que se arrasta pela escuridão

E meus passos escorregam para baixo.

A terra me aguarda.

A vida fica à deriva do que faz sentido.

Restam impenetráveis infinitos

E o finito deságua no oco dos gestos.

Veias abertas derramam o que já tive

E o corpo se desvia

No vento sem rumo da ventania.

A carne e o poente

Frente a frente

Ficam na memória.

O sol posto

A vertigem no rosto.

O que foi eterno

Esconde-se nas paredes do desabrigo

O trigo

Molda o pão do que passou.

A juventude não verdejará nunca mais.

O que se foi não mais se vê

Mas ainda me sinto

Com a graça de ter sido alguém.

Vivo dentro de um silêncio palpável

Que me leva à escrita

E me concilia com o romantismo.

Vivo uma indagação irrespondível

Sofrível

É a vida depois do cansaço

O que faço

De uma vida que se esquiva?

Nuvem na visão dos olhos

Metas que se dissolveram

Como gelo sem destino

O hino

Que devia ser cantado chora

Agora

O sol toca o avesso

Do que não mais empolga

E o livro fica de folga.

Meu suor é o choro

De tudo o que se foi na ventania.

A aragem que me toca é anêmica

Já não tem sangue.

26 de julho de 1934.

Só o que deixo no papel

Sobreviverá.

Em 14 de julho de 2012

OTACÍLIO

Um comentário:

  1. Que texto profundo, Vô. Bem melancólico, triste e muito bem escrito. O senhor consegue passar exatamente o que sente ao leitor, como se suas palavras fluissem direto ao coração. Gostei muito, Vô!

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