A vida...
Já estou quase de saída
Mas o amor pulsa tanto assim
Que não sinto coragem
De me despedir de mim.
O que ainda me compõe me aninha
O que descompõe me azucrina.
Os zunidos
São sentidos
Até dentro dos ossos,
Que envelhecem o que me habita
a pele grita.
O tempo agita o coração
Que se arrasta pela escuridão
E meus passos escorregam para baixo.
A terra me aguarda.
A vida fica à deriva do que faz sentido.
Restam impenetráveis infinitos
E o finito deságua no oco dos gestos.
Veias abertas derramam o que já tive
E o corpo se desvia
No vento sem rumo da ventania.
A carne e o poente
Frente a frente
Ficam na memória.
O sol posto
A vertigem no rosto.
O que foi eterno
Esconde-se nas paredes do desabrigo
O trigo
Molda o pão do que passou.
A juventude não verdejará nunca mais.
O que se foi não mais se vê
Mas ainda me sinto
Com a graça de ter sido alguém.
Vivo dentro de um silêncio palpável
Que me leva à escrita
E me concilia com o romantismo.
Vivo uma indagação irrespondível
Sofrível
É a vida depois do cansaço
O que faço
De uma vida que se esquiva?
Nuvem na visão dos olhos
Metas que se dissolveram
Como gelo sem destino
O hino
Que devia ser cantado chora
Agora
O sol toca o avesso
Do que não mais empolga
E o livro fica de folga.
Meu suor é o choro
De tudo o que se foi na ventania.
A aragem que me toca é anêmica
Já não tem sangue.
26 de julho de 1934.
Só o que deixo no papel
Sobreviverá.
Em 14 de julho de 2012
OTACÍLIO
Que texto profundo, Vô. Bem melancólico, triste e muito bem escrito. O senhor consegue passar exatamente o que sente ao leitor, como se suas palavras fluissem direto ao coração. Gostei muito, Vô!
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